A revolução LGBT na música brasileira

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Você talvez não conheça Lia Clark, Gloria Groove, talvez nunca tenha escutado o trabalho de Liniker, mas provavelmente já ouviu falar em Pabllo Vittar, um menino que se apresenta de peruca, maquiagem, salto alto e que tem feito história diante dos nossos olhos, ao liderar um movimento que tem impactado não só a música nacional, mas a arte como um todo, o debate sobre aceitação, a celebração da diversidade e até mesmo a política! 

O Brasil vem passando por um momento de dualidade, por um lado o avanço do conservadorismo, políticos de mentes pequenas, com ideais retrógrados, que ganham força nas intensões de voto, mas essa é uma resposta a outro lado que vêm crescendo como nunca: a ascensão das minorias, das ideias liberais, o acolhimento da diversidade, progresso esse que, apesar de poderoso, tem naturalmente incomodado uma considerável parte de uma sociedade tradicionalista, patriarcal e escravocrata. É claro que não é de hoje que a musical nacional é composta por grandes ícones LGBT's, entre Cazuza, Renato Russo, Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Daniela Mercury, estes e outros fizeram e ainda fazem história. Mas o que vemos acontecendo hoje, é uma massiva transformação do alcance do espaço lgbt no país, uma ascendência sem precedentes. 

A música, a mídia, o mundo é heteronormativo, este é um fato incontestável, e para se “encaixar nele” sempre foi preciso seguir certos padrões e conceitos, os quais seriam comuns, confortáveis e identificáveis aos olhos da sociedade tradicional. Não atoa renomados artistas, como as cantoras Daniela Mercury, Sandra de Sá, os atores Marco Nanini, Jim Parsons, Neil Patrick Harris, a jornalista Fernanda Gentil, pessoas públicas que por muitos anos esconderam sua sexualidade, por uma necessidade triste, mas real, que se fazia condição para que pudessem trabalhar e serem aceitos em seu meio.

Um garoto incorporar o papel de uma diva de peruca, unhas postiças e maquiagem? Isso iria além de qualquer possibilidade, não apenas um performer que assume de peito aberto sua sexualidade, bem como quebra um grande punhado de padrões em uma só manifestação do seu trabalho! Esse era um cenário provável apenas nos, limitados, espaços onde um LGBT podia se expressar, muitas vezes apenas no seu próprio quarto, talvez numa roda de amigos e, na melhor das hipóteses, em boates e casas de shows voltadas a este público, geralmente o máximo que este chegaria a alcançar. Por um longo período, artistas LGBT tiveram seu lugar de trabalho e fala limados em grande parte da mídia e dos meios de comunicação. Infelizmente essa não é ainda uma realidade passada, ainda há muita luta pela frente, mas estamos presenciando um momento histórico de conversão de paradigmas bem em frente aos nossos olhos.


E que diferença faz Phabullo, nome real da drag Pabllo Vittar, ter surgido justo numa época em que a nova geração de jovens vêm se revelando cada vez mais tolerante e diversa? TODA! Vittar tem a sido porta-voz do gueto que não se contenta mais em abaixar a cabeça e que quer falar, se expressar como quiser, que quer ver celebridades que sejam como eles, que pensem como eles, querem se sentir incluídos e parte do avanço do sucesso, do glamour. Que vêem, pela primeira vez, uma oportunidade palpável, por mais que custosa e longa, de ver a discriminação ser história de tempos sombrios passados, o que há muito tempo já devia ter acontecido. 

Meu objetivo aqui não é transformar ninguém em um mártir de um movimento, mas é inegável a força empoderadora que a representatividade pode causar! Pabllo Vittar derrubou barreiras e conquistou, por baixo de muita opressão, um lugar no prestigioso mundo do padrão heteronormativo, colocou um menino afeminado, montado para se apresentar no horário nobre de umas das maiores redes de televisão do mundo, chegou ao topo das paradas musicais lideradas por ritmos agudamente tradicionais e com um público conservador e pouco favorável a mudanças nos seus padrões já estabelecidos de arte. Vittar saiu dos pequenos shows em boates gays de Uberlândia, São Paulo, Rio de Janeiro, para o palco do tradicional Villa Mix, para o Rock in Rio, o maior festival de música do planeta, Vittar tem causado a visibilidade LGBT, o que Anitta fez com o funk, a levou pro mundo, tudo isso pode parecer uma simples ode a Pabllo, mas é o fio condutor de onde pretendo chegar: O Brasil tem se tornado, pela primeira vez, convidativo ao mundo LGBT, a arte tem transformado, não só a vida de artistas, bem como vêm sendo ferramenta de luta social, em outras palavras, estamos sendo ouvidos!

Essa atmosfera que tem recebido a bandeira do arco-íris já cresceu muito mais desde a explosão do sucesso de Pabllo Vittar, artistas LGBT tem sido procurados, seus trabalhos mais respeitados e drag queens, transexuais, travestis, não-binários, vêm saindo da obscuridade e da visão marginalizada que a tanto tempo receberam e podendo mostrar que são verdadeiros artistas e que foi o muro do preconceito que os marginalizou por tanto tempo. A travesti Priscila, profissionalmente conhecida como Mulher Pepita, nasceu no Rio de Janeiro e começou sua carreira como dançarina de funk nas boates cariocas, Pepita se tornou uma das primeiras funkeiras assumidamente travesti e que leva militância pro seu trabalho. A cantora é uma das que tem feito história na mídia, afinal, de quantas celebridades travestis você já tinha ouvido falar?

Esse movimento, esse momento histórico pelo qual estamos passando está aquém de qualquer gosto pessoal ou afinidade musical, essa revolução está acontecendo e esse espaço está sendo conquistado, você goste ou não. Mas se o assunto voz ainda lhe é prioridade, Liniker é uma cantora e compositora não-binária, dona de uma potente voz do soul e do black music, ela é também ativista do movimento negro, LGBT e feminista, sua banda Liniker e os Caramelows vêm ganhando grande destaque inclusive fora do país, onde já se apresentaram algumas vezes na Europa.

Preparamos uma playlist com músicas de vários artistas do seguimento LGBT brasileiro, diversos ritmos e vozes, é só clicar aqui e curtir! Ainda não há nenhuma vitória definitiva, embora os avanços tenham chegado cada vez mais as nossas mãos, o espaço de todos esses artistas ainda é constantemente ameaçado pelo conservadorismo e pelas mentes tradicionalistas e fechadas de grande parte do nosso povo, mas como tem tanto se falado: Está tendo luta e continuará!
A revolução LGBT na música brasileira A revolução LGBT na música brasileira Reviewed by Bhárbara Andrade on junho 18, 2018 Rating: 5

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