Pós-terror ou simplesmente terror?

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A Bruxa (2015)
O crítico de cinema do jornal The Guardian, Steve Rose, publicou um artigo em 2017 classificando alguns filmes como pós-terror. Ele escolheu essa classificação para os filmes que saem dos clichês e deixam de lado o sangue, monstros e excesso de sons, fazendo algo completamente diferente.
O que acontece quando se afasta das rígidas convenções e se deixa perambular pela escuridão? Você pode encontrar algo até mais assustador. Ou algo que nem assustador é. O que pode estar emergindo aqui é um subgênero. Vamos chamá-lo de ‘pós-terror’.
Mas, será que o ‘pós-terror’ criado por Rose é tão diferente assim? Ele resolveu citar alguns filmes para encaixar nessa classificação como A Bruxa (2015), Ao Cair da Noite (2017), The Neon Demon (2016), Personal Shopper (2016) e o mais novo A Ghost Story lançado nos Estados Unidos em Julho. Os filmes escolhidos tem em comum o terror psicológico, questões mais profundas e até metafísicas além de uma grande rejeição por parte da crítica e dos espectadores por não serem tão surpreendentes em seus silêncios longos. Dentro das adequações de Rose, o subgênero pode se encaixar em filmes clássicos como O Bebê de Rosemary (1968) e O Iluminado (1980), filmes que traziam críticas e temas muito mais abstratos e profundos antes mesmo se sequer existir um pós-terror.

Há um problema ainda quando analisamos, antes de tudo, a origem do ‘pós’ nas palavras. Usamos pós quando nos referimos a algo que se distancia e/ou rejeita do que veio antes, algo que veio depois de. Sendo assim, o pós-terror seria uma tentativa de modificar o gênero, uma nova forma de expressar o terror como se este fosse ultrapassado e precisasse ser substituído. Quando falamos de subgênero falamos de slasher film e found footage, por exemplo, filmes que não se distanciam do terror simplesmente por terem temáticas diferentes, muito pelo contrário, mostram que o gênero é abrangente e merece sim ter várias vertentes.

Personal Shopper (2016) 
Particularmente, quando assisti os filmes apontados por Steve senti como se um ar fresco fosse dado ao gênero, deixando de lado os já cansativos jump scare, e passando a sensação de que os criadores estivessem tentando salvar os espectadores e até os críticos dos clichês do terror feito nos últimos anos de forma massiva. A esperança não veio porque os filmes que estavam sendo produzidos eram ruins, mas sim porque há um enorme leque de opções dentro do que é a definição do terror – estado de pavor intenso, caracterizado por uma grande quantidade de medo. O medo é inato, os filmes do pós-terror são simplesmente ótimos filmes de terror psicológico e ponto final.

A definição de Rose reafirma o esnobismo em relação ao terror, assim como muitas vezes a Academia faz ao ignorar em suas indicações ao Oscar os filmes do gênero – diferente do Festival Sundance de Cinema, que premiou A Bruxa por melhor diretor (Robert Eggers), deixando de lado o preconceito. O pós-terror nada mais é que uma forma de dizer que filmes assustadores mais profundos não merecem o título, como se o gênero fosse pobre de produções. Steve Rose faz um desfavor ao gênero do terror ao tentar criar um subgênero como se fosse realmente necessário desmotivar os criadores e os fãs. O terror pode ser abrangente, sem precisar de tantas divisões e complicações. 
Pós-terror ou simplesmente terror? Pós-terror ou simplesmente terror? Reviewed by Bhárbara Andrade on abril 30, 2018 Rating: 5

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