Análise | O Homem Elefante (1980)

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Existem alguns filmes que deveriam ser filmografia básica para qualquer ser humano. O Homem Elefante, lançado em 1980, sem a menor sombra de dúvidas, é um deles. Após ter o assistido pela primeira vez, percebi que aquilo não se tratava apenas de um simples filme, ali estava um ensaio sobre espetacularização, mesquinhez social, e principalmente humanização. 

Ambientado na Inglaterra do século XIX, o filme dirigido por David Lynch foge do tom surrealista que o diretor gosta de dar em suas obras. A história é baseada nos manuscritos do Doutor Frederick Treves, um médico inglês que estudou o caso de John Merrick, o homem elefante. John Merrick, interpretado magistralmente por John Hurt, é portador de uma doença chamada Neurofibromatose Múltipla. Essa rara patologia deformou 90% de seu corpo devido ao crescimento de múltiplos tumores. Órfão e com a aparência comprometida, John acabou indo parar num circo sendo apresentado como O Homem Elefante numa espécie de freak show itinerante. 


Em um desses espetáculos noturnos na capital inglesa, o médico Frederick Treves (Anthony Hopkins) conhece aquela figura humana escondida pelos enormes tumores e, a partir de um sentimento misto de curiosidade e ternura, resolve estudar sua doença e o leva para o hospital. Após a chegada do dito homem elefante no ambiente hospitalar, começamos a seguir a trajetória de um homem que passou a vida inteira sendo tratado como alguém sub-humano e que agora receberia doses crescentes de humanidade.

Receber uma roupa decente, ganhar um livro, ser convidado para tomar um chá, ou simplesmente ter um amigo são coisas que nos parecem elementares, mas para John que passara toda a vida sendo explorado dentro de uma jaula, são únicas. Muitas vezes o protagonista não consegue conter sua emoção diante dessas situações extremamente corriqueiras para qualquer um que tenha recebido ao longo da vida carinho, amor, solidariedade. São cenas que tocam a alma até dos espectadores que se dizem mais fortes. Com o caminhar do filme, o protagonista vai perdendo a alcunha de homem elefante e se tornando apenas Sr. John Merrick, um homem educado, afetuoso e gentil.


Outra questão que Lynch evidencia é a espetacularização da figura humana. John em vários momentos do longa é usado como objeto de exposição para que outros ganhem algo em troca. Inicialmente o explorador circense Bytes (Freddie Jones) faz isso apresentando-o como o Homem Elefante e ganhando dinheiro com seus espetáculos. No fim do primeiro ato do filme é levantado questionamento: estaria o Dr. Treves também usando o John para ganho pessoal? Treves ao levar o famoso homem elefante para o hospital e estudar sua doença, apresentou-o para a comunidade científica e obteve reconhecimento tanto por eles quanto pelas autoridades políticas. Sendo posteriormente questionado por algumas pessoas em relação a essa “fama” repentina, o médico repensa sua postura em relação a John e foca em oferecer a ele cada vez mais condições humanas de vida abrindo mão de qualquer ganho pessoal que o contato com John possa trazer. Isso fortalece cada vez mais a amizade entre os dois.

Tecnicamente o filme é irretocável! O capricho, a classe, e as peculiaridades de David Lynch mostram que ele é de fato um dos grandes nomes do cinema. A direção opta por não acelerar em momento algum a história permitindo o investimento cada vez maior do espectador na trama. A opção por gravar o filme em preto e branco foi certeira, pois além de transmitir muito bem o século XIX num cenário de revolução industrial, permitiu que o diretor escurecesse mais as imagens no início e fosse clareando paulatinamente no decorrer da história. Esse clareamento da imagem acompanha o processo de humanização que o homem elefante passa. A atuação de John Hurt como John Merrick é de cair o queixo. Ele, mesmo passando o filme inteiro atrás das próteses e da maquiagem, consegue transmitir toda a emoção que o personagem sente. Essa atuação rendeu uma indicação ao prêmio de melhor ator no Oscar de 1981. A maquiagem poderosa realizada no filme impulsionou a criação no ano seguinte da categoria melhor maquiagem e cabelo no Oscar. A trilha sonora extremamente bem posicionada nas cenas é muito adequada e suscita a emoção nos momentos certos.


Não julgar algo antes de conhecer. Oferecer amor para que o universo te retribua amor. Não abusar de ninguém em benefício próprio. Esses são ensinamentos que mesmo parecendo básicos para os seres humanos, por vezes são ignorados. Acima de qualquer mérito de técnica cinematográfica, O Homem Elefante merece mérito por conseguir, em 2 horas de filme, enternecer o coração de quem o assiste e no mínimo instigar um exame de consciência pessoal sobre como estamos agindo diante das relações humanas. 

 Nota:  5 | 5
Análise | O Homem Elefante (1980) Análise | O Homem Elefante (1980) Reviewed by Bhárbara Andrade on março 23, 2018 Rating: 5

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