Netflix | The End Of The F***ing World

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Chegou a Netflix nesta sexta (5/01) a nova parceria do serviço de streaming com o canal britânico Channel 4. Trata-se de The End of the F***ing World, série de humor negro baseada nos quadrinhos de Charles Forsman. A série retrata o inusitado encontro entre James, um adolescente presumivelmente portador de psicopatia, e Alyssa, uma garota agudamente rancorosa e que não consegue se encaixar no meio social. Ao notar as semelhantes dificuldades de James em socializar-se, Alyssa desperta um interesse, a primeira vista egoísta, de torná-lo seu parceiro, o garoto por outro lado faz o mesmo ao ver nela uma vítima perfeita para realizar a façanha que é a muito é planejada por ele: matar uma pessoa, na esperança de sair de sua própria rotina monótona. 

Acontece que, como típicos adolescentes, a personalidade e anseios dos dois é muito questionável, uma vez que quando saem de sua zona de conforto e são colocados frente a situações que exigem crua certeza de seus desejos, estes fraquejam e acabam duvidando de seus próprios interesses e agindo por medo ou insegurança. James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden) são dois opostos, ela é uma garota carente, insegura e que mascara sua urgência de atenção com uma atitude arrogante e prepotente, cresceu com sua mãe e o relacionamento abusivo desta com seu padrasto, um potencial pedófilo. James é apático, sem conseguir se envolver com o meio, mas passa uma imagem de bom garoto, justamente pela ausência de expressão, vive com um pai abobalhado, que não parece nem nunca ter notado os transtornos psicológicos do filho. 

Por outro lado, mesmo sendo dois grandes opostos, suas personalidades distintas do padrão parecem estar ligadas a uma negação parental, James cresceu sem a mãe e Alyssa longe do pai, o que, de formas bem discordantes a cada um deles, resultou num dever não atendido de afeto. As narrações em off do dois protagonistas foi uma importante inserção de Jonathan Entwistle, criador, co-produtor e co-roteirista da série, tanto para possibilitar o entendimento de detalhes particulares dos quais pelo modo tradicional não teríamos acesso, quanto para a constituição do humor ácido presente no relacionamento dos dois. 

Acompanhar o desenvolvimento de James e como o processo de conhecer Alyssa o impacta internamente, é um dos pontos mais instigantes e que bota em cheque sua, até então, incapacidade de se envolver emocionalmente e o seu não-diagnosticado transtorno psicopatológico. Ainda quanto a James, me recordei do personagem de Ezra Miller (As Vantagens de ser Invisível, Liga da Justiça) em Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), ambos garotos apresentam uma carência de pulso paterno, pais que não souberam defrontar com seus problemas psicológicos e deixaram que crescessem numa vida quase que sem regras, limites ou punições, potencializando seus desvios. 

Com tudo para dar errado nesse quase que impossível romance, Alyssa convence James a fugirem atrás do pai da garota, que ela não vê há anos, e é a partir dai que o enredo toma sua estrutura. Seguindo a clássica linha dos road movies, o casal se vê entrando em situações que vão de rápidos acontecimentos - como ter de fugir de uma lanchonete por não terem como pagar - até a conjunturas de grandes proporções, cada vez mais dando forma a construção dramática da série e deixando a ligação emocional de um para com o outro cada vez mais forte. É como se essa jornada servisse para resetar intimamente os dois, tornando a si mesmo mais clara a visão de suas personalidades e quem eles realmente são, e isso inclui descobrir o quanto se gostam. 

Até metade da série estamos dedicados a história dos garotos, sem plano secundário. Esse foco é quebrado logo após se envolverem em um crime real, chegando então um núcleo policial que investiga o caso. Essa inserção é importante para o clímax da história, mas deveria ser menos evasiva, uma vez que causa uma ruptura na história de amadurecimento de James e Alyssa, o que frustra bastante pelo laço que já vínhamos criando com os heróis. 

Felizmente, esse ponto não apaga os ótimos momentos que The End of the F***ing World nos oferece, uma mistura de drama e humor negro, uma ode ao período mais conturbado e progressista de nossas vidas, a adolescência, como podemos acabar nos (re)conhecendo de maneiras totalmente inéditas e descobrir que somos, talvez, o exato oposto do que acreditávamos. Como o ambiente familiar pode moldar a vida dos que ali convivem. E, ainda assim, não deixa de ser uma história de amor, e como ele pode, genuinamente, nos salvar. 
Todos os episódios da sua primeira temporada já estão disponíveis!

Netflix | The End Of The F***ing World Netflix | The End Of The F***ing World Reviewed by Bhárbara Andrade on janeiro 06, 2018 Rating: 5

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