Análise | Corra! (2017)

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Definir Corra! não é fácil. Imagine um filme satírico de suspense, com doses de terror, toques de comédia e que consegue fazer uma crítica social em várias camadas. Então, o mais recente filme de Jordan Peele é tudo isso! Lançado em maio de 2017, o filme de Peele, diretor que até então só havia dirigido comédias, chocou os espectadores com uma crítica ao racismo nos Estados Unidos através de um história nada convencional. No enredo temos Chris Washington, um negro que está viajando para conhecer os pais de sua namorada branca Rose Armitage. Chegando na bela e isolada casa dos sogros, ele começa a perceber há algo de errado no comportamento das pessoas ali.

A questão racial já fica evidente nas primeiras falas do filme quando Chris questiona para Rose se ela havia contado para seus pais sobre a cor de sua pele. Ela diz que isso não era necessário e que não haveria problema algum, visto que seus pais não eram racistas e inclusive haviam votado no Obama. Afirmações desse tipo: “não somos racistas, votamos no Obama” ou “eu adoro o Tiger Woods” são lançadas a todo momento na película para satirizar a maneira com que as pessoas expressam seu preconceito racial velado. Isso seria equivalente à algumas pérolas que qualquer um pode ouvir no dia-a-dia, a mais clássica é “eu não sou racista, tenho até amigos negros". Ainda nas camadas mais superficiais, a crítica ao racismo também está presente na cena do atropelamento do cervo quando o policial exige que o Chris apresente sua carteira de motorista só por ser negro.

Nas camadas mais profundas temos a principal sátira do filme. Jordan Peele decidiu fechar o enredo de maneira absurdista, mas certeira. Durante toda a película, os atributos físicos dos negros são reforçados por vários personagens brancos para que ao fim, víssemos qual era o objetivo da família Armitage. Capturar pessoas dessa raça e os submeter ao procedimento Coagula: retirar o cérebro de um branco e colocar no corpo de um negro. Para os Armitage, unindo o melhor que cada raça tem a oferecer: a inteligência do branco e a força física do negro, poderia-se “chegar a algo perfeito”.

Corra! está sendo aclamado pelos críticos de cinema por conseguir um feito único, fazer uma forte crítica social através de um enredo que inicialmente parece genérico, mas que com o progredir da história se torna um suspense com o final totalmente inesperado. Os aspectos técnicos da película também contribuem para esse sucesso. O diretor utiliza recursos cinematográficos muito inteligentes como dessaturar e elevar o contraste das imagens para deixar o que é branco mais branco e o que é mais preto mais preto reforçando as oposições do filme. Além disso, ele utiliza de planos mais abertos no início e vai fechando os planos de acordo o protagonista Chris vai se sentido encarcerado. O roteiro, muito bem escrito, permite que a história caminhe adequadamente e que o filme flua num ritmo funcional. As atuações estão ótimas e o destaque está para Daniel Kaluuya interpretando magistralmente Chris Washington. A maneira como Kaluuya consegue utilizar os olhos para expressar desespero é inexplicável.

Todos esses atributos renderam Corra! quatro indicações ao Oscar de 2018: melhor filme, melhor diretor para Jordan Peele, melhor ator para Daniel Kaluuya e melhor roteiro original também para Jordan Peele.
Análise | Corra! (2017) Análise | Corra! (2017) Reviewed by Bhárbara Andrade on janeiro 28, 2018 Rating: 5

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