Extraordinário, aceitação e afeto

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Quando Extraordinário foi lançado em livro, lá em 2012, lembro da euforia sobre a história. Não sei exatamente o porquê mas a comoção com histórias de drama e com algum tipo de tragédia tendem a fazer um enorme sucesso entre as pessoas. Escrito por Raquel Jaramillo, sob o pseudônimo R. J. Palacio, o livro conta a história de Auggie Pullman, um garoto que sofre da síndrome de Treacher Collins, que causa deformação facial e consequentemente uma vida complicada para a família do garoto e para o próprio. 

O drama da premissa me levou diretamente à A Culpa é das Estrelas e outros filmes dramáticos do gênero mas ele acabou sendo muito mais do que qualquer um dos que eu imaginei. Extraordinário é cheio de carinho e cuidado ao tentar mostrar questões importantes sobre a vida e suas dificuldades. Durante 1h53m de filme nós acompanhamos a mãe de Auggie, a irmã e o próprio tentando encaixar suas vidas e descobrir a melhor forma de se adaptar à problemas irreversíveis. É de se imaginar que um garoto com deformidades faciais fosse passar por dificuldades de socialização mas não é só isso, Auggie tem traumas e recebe as ofensas de uma forma muito mais passiva do que se imagina. Em um certo ponto nós percebemos que não é só o que as pessoas de fora vêem mas também o que ele vê e como seu inconsciente recebe isso. 

Extraordinário me fez repensar em uma quantidade imensa de coisas. Primeiro Auggie me fez perceber que o primeiro passo para entender como as pessoas te veem é tentar ver o que você passa para elas, e isso vai muito além de beleza física ou algo do tipo. Todos nós amanamos energia e em alguns momentos o que os outros veem é o que você faz com que eles vejam a partir disso. Quando Auggie percebeu que conseguiria ter amigos mesmo com seu problema, deixou de lado seu capacete de astronauta que nada mais era do que um escudo de tudo o que ele sofria. É claro que não dá pra ignorar o fato de que crianças podem ser cruéis e que passar por isso quando se é mais novo pode ser ainda pior mas tentar se lembrar de que em algum lugar existe alguém que também está tentando ser aceito pode ser um grande passo para parar de achar que você é o único passando por algo ruim. 

Quando entramos um pouco na vida da irmã de Auggie, vemos a vida de alguém que deixou um pouco de suas necessidades afetivas de lado por medo de incomodar. Via, a irmã de Auggie, sente a falta da atenção de seus pais e sofre por isso em silêncio. Via também quer o carinho e afeto de seus pais mas sempre que suas aproximações são feitas, Auggie, por algum motivo, ganha os holofotes da situação. Isso não acontece simplesmente em uma relação de pai e filho, as vezes nos doamos para amigos, namorados e qualquer outro tipo de relação e nem sempre temos a resposta afetiva que gostaríamos. Via sabe que talvez sua vida seja assim sempre e aceitou ser deixada de lado, evitou conversar, resolver. A situação que envolve afeto e medo da perda se torna tão complicada e cheia de informações que em alguns momentos nos embolamos em situações onde apenas um lado sente enquanto o outro não percebe o que causa. 

Extraordinário deixou algumas coisas claras na minha cabeça. A necessidade de tentar entender o outro, o seu momento, seus sentimentos e o porquê de cada reação. A amiga que a gente percebeu que se afastou, o namorado que parece indiferente, a relação ruim com os pais. Entender o que você quer, o que você está sentindo e o que o outro sente em relação à você. Há um emaranhado de questões sentimentais dentro dos questionamentos do filme que me levam a perceber que o diálogo, a partilha, dividir suas dores com alguém que você sabe que se importa, podem ser pontos decisivos para dissolver sentimentos ruins. O livro/filme está classificado como infantil mas é um drama inspirador e emocionando sobre a vida e seus pormenores. 
Extraordinário, aceitação e afeto Extraordinário, aceitação e afeto Reviewed by Bhárbara Andrade on dezembro 17, 2017 Rating: 5

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