Crítica | Blade Runner 2049 (2017)



Desde o anúncio do Denis Villeneuve como diretor da sequência de um dos filmes mais cultuados hoje em dia, fiquei em êxtase, meu diretor favorito (Scorsese já foi canonizado por mim, então não conta), colocando sua marca num clássico e depois de mostrar que sabe muito bem o que é levar um sci-fi em Arrival (2016), ele só reafirmou a expectativa altíssima que eu tinha com esse filme. 

A primeira dica que posso dar é, não vá ao cinema esperando ver um filme de investigação policial, cheia de ação e tiroteios, essa não foi a premissa do filme de 82 e também não dita o tom desse, Villeneuve não tem pressa em te mostrar nada, o objetivo aqui, é aproveitar o passeio e refletir junto, e ele te dá tempo pra isso, o que pode ser um problema para algumas pessoas, que não estão acostumadas com esse tipo de narrativa mais contemplativa(não tão comum no cinema americano), ou que simplesmente não gostam dessa maneira de contar história. Mas antes de entrarmos nas nuances e discussões do filme, vamos primeiro recapitular a história do longa de 1982, o filme se passa em uma decadente e futurista cidade de Los Angeles em novembro de 2019, decaída pela poluição e pelo consumismo exacerbado. Numa situação catastrófica e melancólica, onde animais extintos são clonados e replicados de forma a tentar esconder uma realidade deprimente, buscando novas formas de colonização em outros planetas, em face do colapso da civilização humana e material, foram criados replicantes humanos para serem usados nas mais nocivas atividades, na Terra, e principalmente fora dela. Após um motim, os replicantes são banidos na Terra, passando a serem usados para trabalhos perigosos, servis e de prazer nas colônias fora da Terra. Replicantes que desafiam esse banimento e retornam para a Terra são caçados e “aposentados” pelos agentes especiais da polícia conhecidos como Blade Runners. 

A nova história, como o nome já diz, se passa em 2049, 30 anos após os acontecimentos do primeiro filme, e para cobrir algumas coisas que mesmo com as 2h e 44min de filme não conseguiu, Denis, pediu alguns diretores para produzirem 3 curtas que se passam entre as duas datas, afim de mostrar um evento importante da trama e duas introduções de personagens, vou fazer uma breve síntese do conteúdo delas, caso não queira ler, é só pular a parte em negrito, o primeiro curta se passe em 2022, quando a Tyrell, mesma empresa que construiu os replicantes no primeiro filme, lança um novo modelo, o Nexus 8, esse agora com uma lifespan igual a de um ser humano comum, a partir daí, começam movimentos supremacistas da população e ataques usando os dados da empresa para identificar quem são os replicantes, e tudo isso culmina em um atendado afim de destruir esses dados, causando um blackout que atrasou o desenvolvimento tecnológico e misturou de vez a população não humana e humana, o segundo apresenta o personagem Niander Wallace (Jared Leto) em uma espécie de audiência em 2036, afim de conseguir liberação para voltar com a produção de replicantes, já que esses foram proibidos de serem criados após o blackout, e o terceiro apresenta Sapper Morton (Dave Bautista) basicamente para nos situarmos que ele é um dos replicantes da geração antiga.​




Voltando ao que interessa, a trama desse novo filme, segue K (Ryan Gosling), um blade runner, agente do Departamento de Polícia de Los Angeles, e que como seus antecessores, trabalha localizando e “aposentando” antigos modelos que ainda estão à solta, mas em uma de suas investigações, ele descobre um segredo há muito tempo escondido, que tem o potencial de transformar o que resta da sociedade em um caos. A descoberta de K o leva a uma missão para encontrar Rick Deckard (Harrison Ford), um antigo blade runner desaparecido a 30 anos. E mesmo centrado nesse mistério policial, o filme vai muito além disso, ele continua as discussões filosóficas e existenciais iniciadas no primeiro, e as amplia, usando esse futuro distópico, para fazer reflexões sobre a natureza das memorias, da nossa identidade, de como nossas memorias/experiências nos formam como individuo, e claro, sobre o que é ser ou o que nos torna humanos, e isso o Denis faz magistralmente, preservando a atmosfera do primeiro filme e nos proporcionando um espetáculo visual e sensorial. Muito disso deve-se também ao diretor de fotografia, Roger Deakins, um dos melhores da história, parceiro dos irmãos Coen em clássicos como Fargo, The Big Lebowski, No Country for Old Men e True Grit e agora do Villeneuve em Prisoners, Sicario e Blade Runner 2049. Usando cortes longos, muito contraste e cores opostas no círculo cromático para viajar entre ambientes altamente populados e desérticos, te dão uma imersão ainda maior nesse mundo. Com certeza um front runner para ganhar o Oscar de Cinematography, merecidamente após 13 indicações. E para completar, a trilha fica por conta do genial, Hans Zimmer, que pega muito da essência e do feeling da trilha original, feita pelo Vangelis, e faz como sempre, um trabalho de esmero.



Posso dizer que outra qualidade do filme é conseguir se sustentar individualmente, como Mad Max: Fury Road (2015), inicia um universo que funciona por si só, mas que tem um background que adiciona novas camadas a experiência assistida, mesmo eles sendo quase que opostos em ritmo de filme, o primeiro um frenesi de ação, e o outro um filme mais poético, consigo ver muita coisa em comum, inclusive a expectativa de virar um clássico instantâneo. No fim, esse é o tipo de filme que te faz muitas perguntas, mas se recusa a te dar todas as respostas, agora cabe a você decidir ser um mero receptor passivo ou buscar as respostas. 

 Nota:  9,6/10 
 Indicado pra quem gostou de:  Arrival (2016), Mad Max: Fury Road (2015), Her (2013), Blade Runner (1982), 2001: A Space Odyssey (1968).


2 comentários:

  1. Oi Caio,
    Parabéns pela excelente crítica. Bem completa! Já vi o filme e também expressei minhas impressões dele no Garotos Perdidos.
    Abraços,
    André | Garotos Perdidos
    www.garotosperdidos.com

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  2. Olá, tudo bem?
    Tenho visto muitas críticas positivas sobre este filme, não é o tipo de filme que me interessa muito. Porém é bom ter novas dicas sobre as novidades do cinema.
    Beijos, Larissa (laoliphant.com.br)

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