Review | As Duas Irenes (2017)



Adolescência. 13 anos. Tempo de transições. Espaços de descoberta. Derrocada da infância. As emoções são a única forma de expressão possível. O único grito diante da juventude que teima a amadurecer por vezes sentimentalóide, por vezes racional, mas sempre desejosa de liberdade.

Família é lugar de contradição. Entre costumes, controles. Entre sistemas, contestações. Irene se percebe na arena da adolescência. Típica irmã do meio, quebra a harmonia trabalhada pelos pais entre a irmã mais velha que debuta e a mais nova como xodó. Ser a do meio, não significava ficar no meio do caminho.

Irene descobre que seu pai tem uma família secreta. Logo ali, nas redondezas. Se já a traição não parecia drástica o bastante pela relação familiar, o era também espacial, onde os afetos tinha deitado suas raízes. E se isso não bastasse, a família secreta incluía uma meia-irmã de mesma idade. E mesmo nome.

A trama de As Duas Irenes retrata com candura dramática, força plástica e sutileza narrativa, a história de duas irmãs ligadas por um mesmo pai, um mesmo espaço e um mesmo nome. O diretor Fábio Meira entrega um longa que celebra ao mesmo tempo os brios do cinema brasileiro contemporâneo e o desabrochar da vida.

A história parece bucólica, regional e microscópica, mas a maneira como a fotografia, a direção de cenas e a construção de personagens agiganta a obra. O enredo é uma fábula factual ou ficção real de comer com olhos e de colher. Sem localização declarada no tempo e no espaço, a obra se fixa no limbo do imaginário. Aquele que se ativa quando ouvimos uma história dos avós, diante de uma fogueira ou com amigos na infância.

A Irene que o filme entrega como deflagradora da família secreta do pai e de sua meia-irmã homônima começa pastel, em dois tons, simples, mínima. Ao se encontrar com a outra Irene, sua adolescência em estouro passa a ganhar outras texturas, na medida em que se cria um vínculo quase escuso entre as duas.

A jornada fraterna se torna uma jornada profundamente identitária. As duas Irenes munidas de seus repertórios começam a construir juntas as tramas de sua juventude e, nesse encontro, entendem novos modelos de ser e estar. Encontros com o corporal, o afetivo, o vestir, o sentir e o posicionar-se dão volume aos atos do filme.

E é aí que reside o mérito da obra. Uma direção de arte e de cena pautada em olhares e expressões. As feições ditam não a temperatura, a textura, a coloração e a vibração do longa-metragem, uma tela contemporânea que marca seu desenvolvimento ora singela, ora visceral, mas sempre comunicante.

Os objetos de cena, os trejeitos dos personagens e a ambientação cultural concedem outras camadas à As Duas Irenes. Meira constrói mulheres complexas, reais e extremamente jovens em uma espécie de manifesto. Fica evidente não apenas a disposição cinematográfica de elementos que evidenciam jovens na flor da adolescência sob uma tensão familiar a aclimatar o roteiro doce. 

É uma discussão sobre sororidade. Sobre a complexidade feminina sempre existente, sempre patente, mas invisibilidade por lentes posicionadas sob outros planos privilegiados de contação de histórias. É na amizade, no afeto, no suporte entre mulheres que se evidencia uma história palatável e necessária. História saciável e ao mesmo tempo insaciável posto que o espectador ficará cada vez mais faminto e sedento por ouvir, ver, viver e recontar histórias reais de mulheres complexas jovens ou não. Porém, em face de um novo momento onde as micro-histórias são os discursos mais eloquentes.


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