Review | Caravanas - Chico Buarque (2017)



Após seis anos sem nos dar o ar da sua melódica voz jovial, Chico Buarque lança seu novo álbum de estúdio intitulado "Caravanas". O álbum, o qual é o 23° de sua carreira, não é tão menos bem trabalhado quanto seus anteriores e promete se destacar dos demais como o primeiro a conter canções totalmente autorais. No entanto, há duas canções regravadas pelo carioca, que já foram sucesso na voz de outros intérpretes, mas que agora passam a completar o seu repertório lírico. 

Compactado em apenas 9 canções de arranjos peculiares, o cantor que imortalizou a clássica "A Banda" parece querer aventurar "Caravanas" no mundo da pós modernidade musical. Sem perder o leve toque político, que é uma de suas marcas, Chico brinca com palavras, rimas, aliterações e neologismos ao longo de todo o disco. 

O álbum se inicia com "Tua Cantiga", uma preciosa canção na qual Chico nos mostra sua destreza como poeta e compositor. Rimas "falsas" como "nome/perfume, nega/cantiga" embalam a canção que foi o carro-chefe deste novo projeto. O cantor, porém, deu certo azar: logo de início a canção foi acusada de conter teor machista nos versos "Quando teu coração suplicar/ Ou quando teu capricho exigir/ Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir". 
Chico, adepto do bom senso, respondeu de pronto as críticas através de suas redes sociais.


Em "Caravanas" Chico mistura seu romantismo usual com assuntos contemporâneos, como é o caso da "Blues pra Bia". Ao fim dessa canção, curiosamente descobrimos o motivo pelo qual "Bia" não prestava atenção nas insinuações do eu lírico: ela é homossexual. Ao som de piano e com pinceladas de guitarra, revela que "no coração de Bia/ Meninos não têm lugar", e ao final completa: "Até posso virar menina pra ela me namorar". 

"A Moça do Sonho", que já havia sido gravada anteriormente por Maria Bethânia, ganha simples arranjo na voz de Chico. A orquestra de Maria Bethânia é substituída pelo violão e violoncelo de seu compositor. Esta canção é mais uma daquelas que não se ousa adentrar no sentido da letra sem se perder na mente frenética de quem a escreveu. É necessário mergulhar por entrelinhas para alcançar o contexto de suas palavras, um dom reservado a poucos. 

Com um misto de bossa e samba, "Jogo de bola" também é uma canção com significados intrínsecos. Pode parecer mais uma composição que versa sobre a alegria saltitante ocasionada pelo correr da bola numa partida de futebol. Entretanto, é mais do que isso. “Salve o jogar bonito/ O não ganhar no grito” é um apelo à divisão política trazida pela crise em nosso país. De quebra, o som das sílabas produz uma das partes mais preciosas de todo o álbum: “Outrora, quando em priscas eras/ Um Puskás eras/ A fera das feras da esfera,/ mas agora/ Há que aplaudir o toque/ O tique-taque, o pique, o breque”.

"Massarandupió" é uma colaboração genética de muito talento. É uma parceria de Chico Buarque com Chico Brown. Avô e neto se unem em uma valsa orquestrada que conta sobre a infância do neto na cidade de Salvador, pelos olhos atentos de seu avô. A colaboração se deu graças ao intermédio do pai do garoto, o também músico Carlinhos Brown. Com uma letra singela e um tanto pueril, a voz sempre jovem de Buarque se destaca em diversas passagens da música. Essa com certeza é uma canção para se escutar ao viajar, visto que traz em si um caldo de devaneios, recordações e muitas delícias. 

Em "Dueto", a família se reúne novamente. Dessa vez, vovô Chico e sua neta Clara Buarque interpretam a canção que ficou famosa na voz de Nara Leão em seu álbum Com açúcar, com afeto (1980). Desta vez, substituem passagens da música por palavras muito caras aos jovens de hoje: "Twitter, Face, Tinder, Snapchat, Instagram, Whatsapp, Skype, Telegram...". Sem dúvidas, uma tentativa (com sucesso) de alcançar um público novo. 

"Casualmente" é um bolero cantado em espanhol e que não chama muito a atenção, a não ser pelo fato de ser uma resposta a quem, nos últimos tempos, mandou Chico Buarque "voltar pra Cuba". O cantor, como resposta à intolerância política, compôs com elegância a canção inspirado em um show que presenciou em Havana. A mensagem política se mistura ao romantismo em "Desaforos", penúltima música de "Caravanas". Nos versos "Custo a crer que meros lero-leros de um cantor/ Possam te dar/ Tal dissabor", o eu lírico se impressiona com o fato da sua opinião política incomodar tanto aqueles que pensam diferente dele.

Por fim, "As Caravanas" é a promessa de todo o disco (talvez por isso tenha sido deixada por último). Isso porque Chico Buarque une toda a sua habilidade poética e engrossa a crítica social, fazendo lembrar em muito as famosas "Roda Viva" e "Construção". Esta canção versa sobre a reação dos moradores da Zona Sul do Rio ao se depararem com negros suburbanos que vêm banhar nas famosas praias cariocas ("tipos muçulmanos do Jacarezinho"). O que a elite chama de "Rolezinho" Buarque dá o nome de "Caravana" e mais um pouco de dignidade. Para dar cor à musica, Chico escolheu ninguém menos que Rafael Mike do "Dream Team do Passinho", para as batidas de funk que permeiam a canção. 

Não há dúvidas de que Chico Buarque acertou em cheio neste álbum inédito. Apesar de insistir num romantismo deveras meloso, o cantor e compositor mistura o clássico e o novo, o funk e o bolero, o romântico e o ácido, o violão e a guitarra. Isso faz com que a novidade se destaque neste trabalho. 

Nota: 9,5 
Para escutar essa preciosidade, basta clicar no player abaixo:


Nenhum comentário:

Postar um comentário