Uma vida feita de episódios?

Quando a maratona é nossa vida


A aguardada temporada de Defensores chegou. Os episódios de Big Little Lies foram devorados um a um. A expectativa pela series finale de Game of Thrones só aumenta. Ou o episódio tão esperado de sua série ou anime favorito te fazem vibrar pela próxima descoberta da trama. Estamos bem habituados a construir os cenários de nossas produções favoritas episódio a episódio. Mal começa uma temporada e as especulações da próxima já começam nos fazendo mergulhar bem fundo nessa torrente episódica, sazonal e fragmentada. Mas o que isso diz a nosso respeito?

Não estamos tratando aqui de como consumimos esse tipo de produção audiovisual, da avidez por narrativas ficcionais ou das mais variadas e interessantes histórias que são contadas de um “anteriormente em…” a um “continua no próximo episódio”. Nosso jeito e afeição por seriados não demonstra apenas uma tendência de consumo, mas o jeito como você consome essas histórias tem sido um reflexo de como contamos nossa própria história. Estamos narrando nossa vida de maneira episódica, por temporadas, com tramas e sem muita consciência de seu desenrolar.
Estamos narrando nossa vida de maneira episódica, por temporadas, com tramas e sem muita consciência de seu desenrolar.
Parece estranho? Nem tanto. Se há uma coisa que foge à moda é o tal do projeto de vida. Jean Sartre, filósofo francês, dizia que o homem não é nada se não aquilo de que trata seu projeto de vida. E mais, nossa existência estaria condicionada a um projeto de vida. Ao dizer projeto, falamos de uma trilha pensada, construída de agora para o futuro, com metas, realizações alcançáveis ou um esforço para nos levar adiante, como a origem da palavra faz sugerir. Sem muito pensar, vemos que essa noção de existência com projeto de vida se tornou um pouco piegas por boa parte das gerações, para as mais novas em especial.

Tem filtros divertidos para os stories do cotidiano?


O compromisso e o esforço empreendido com essa forma de pensar nossa trajetória pessoal não caiu totalmente. Contudo, deixou por terra um significado mais tradicional de história de vida. Já não desejamos longos projetos com um único sentido e realização, mas ansiamos por viradas, plots twist e tantas reviravoltas quanto conseguirmos. Tudo isso para contarmos uma boa história e deixarmos nossa marca, como se o que se vê por aí não valoriza uma busca por dias melhores ou por uma vivência mais intensa.

O YOLO (you only live once, ou livremente, algo como “só se vive uma vez”) tornou-se mais complexo e intrincado ao cotidiano. Com a queda da forma como encaramos projetos de vida, uma forma de vida similar às séries que acompanhamos com tanto fôlego ganha sentido. Não estamos discutindo a imitação dessas narrativas, mas a forma como são construídas: por episódios, temporadas, customizadas e compartilhadas.
Estamos experimentando uma vida episódica, em que os fatos, ambientes, pessoas, destinos, palavras e ações se unem não para formar permanências, mas mobilidades.
Estamos experimentando uma vida episódica, em que os fatos, ambientes, pessoas, destinos, palavras e ações se unem não para formar permanências, mas mobilidades. E essa movimentação do que nos faz ir e vir se amarra a tempos e momentos bem delimitados, descompromissados com fixações ou desejo de eternizar. Passamos a entender nosso conjunto de experiências e a vida que acontece ao nosso redor como temporadas, uma colagem de narrativas que duram um tempo médio e podem facilmente mudar de direção, e às vezes, sem comprometimento com os caminhos antes tomados.

O Show de [seu nome]


Nossa vida episódica e sazonal passa a ser maleável. O destino fugidio, mítico e metafórico parece estar em nossas mãos. E assim feito, podemos customizá-lo ao sabor do momento, das impressões, inspirações, reflexões e outras produções de nossa mente, emoções ou no outro (ou outros). E compartilhamos. E fragmentamos. A noção do inteiro se dilui em pequenos pedaços de diversos tamanhos com os quais construímos o edifício do eu ou o reciclamos e temos uma nova peça.

Sobre essa serialização da vida, o sociólogo polonês e rockstar do pensamento sobre a atualidade (e de quem sentiremos saudades :/) Zygmunt Bauman, diz que do projeto de vida démodé, passamos ao um momento em que só um estilo de vida fragmentado faz sentido. E nisso, esclarece Bauman, a identidade passa a ganhar uma notoriedade maior e um tanto diferente. 
Somos estimulados a construir, cultivar e produzir nossa identidade. Afinal, não nascemos com uma identidade empacotada e com manual de instruções. A mudança cotidiana de nossa narrativa episódica nos faz ajustar nossa identidade a todo instante.
Hoje, já somos estimulados a construir, cultivar e produzir nossa própria identidade (afinal, não nascemos com nossa identidade empacotada e com manual de instruções), mas ao mesmo tempo, a mudança imprevisível e a narrativa episódica de cada dia nos levam a mudar e ajustar nossa identidade a todo instante.

O que diz o episódio de sua vida hoje? Dá para se ter uma noção da sinopse do episódio de amanhã? Algum spoiler? Talvez essa vida episódica e um cotidiano seriado seja a explicação do porquê nos interessamos sempre mais por depoimentos inspiradores e valorizamos um do it yourself na hora de fazer nossa estrada, nosso caminho. 

É… Há mais semelhanças entre aqueles episódios e séries de que nos jogamos e a nossa vida tal qual ela é, do que poderíamos imaginar. Cientes do “anteriormente em…” e na expectativa do “continua no próximo episódio”, seguimos.


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