Review | Dunkirk (2017)



Christopher Nolan é conhecido por ser um dos diretores mais ousados, inteligentes, práticos e criativos de Hollywood. Isso fica claro ao assistir a maioria dos seus filmes que se caracterizam por roteiros complexos, densos e sempre com um tom surrealista. Interestelar (2014), A Origem (2010) e O Grande Truque (2006) são provas disso. Em Dunkirk (2017), Nolan resolveu se reinventar e fazer uma obra muito diferente do que estava acostumado. E deu certo!

O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial e apresenta a história do “milagre de Dunkirk”. 400 mil soldados britânicos estavam sendo cercados pelo exército alemão na praia de Dunkirk na França e a Grã-Bretanha conseguiu, quase que milagrosamente, resgatar mais de 300 mil. Temos aqui um filme de guerra que foge dos padrões do gênero até então. O foco do diretor está no evento histórico em si e não em personagens específicos. Isso pode causar admiração em uns e ódio em outros. A sensação após terminar a película é de ter presenciado a guerra de perto, todavia não há um sentimento de afeto muito intenso com ninguém em especial. A compaixão é coletiva! O expectador se enternece com o total, com o grupo, com os 400 mil soldados. Nolan, para conseguir esse feito, optou por não desenvolver um arco dramático muito elaborado para cada personagem.

O roteiro é um dos grandes acertos: simples, enxuto, mas muito bem construído. A história é dividida em 3 segmentos com diferentes espaços temporais: os eventos da terra se passam em 1 semana, os eventos do mar se passam em 1 dia e os eventos do ar se passam em 1 hora. Nolan deixou muitas das suas características futuristas e surrealistas de lado para filmar Dunkirk, contudo a maneira com que ele amarra esses três segmentos para que façam sentido na trama é algo que só se vê em filmes dele. O “toque Nolan” do filme, mesmo que pouco, está presente.

O elenco é funcional. Todos os envolvidos estão muito bem com ênfase para as atuações de Harry Styles que surpreendeu no papel do soldado Alex, Tom Hardy no papel do aviador Farrier que, quase com nenhuma fala, consegue protagonizar um dos segmentos mais tensos do filme e Mark Rylance que interpreta um navegador corajoso e patriota. Outro ponto que merece destaque é a quantidade absurda de figurantes que Dunkirk tem. As cenas aéreas chegam a ser chocantes pela grandiosidade da produção.

A cinematografia e a fotografia são talvez os pontos mais altos desse filme. Na atualidade poucos diretores tem a habilidade de dirigir cenas imponentes como Christopher Nolan. A construção da mise-en-scène dele é impecável. Convenhamos que colocar uma câmera IMAX na ponta de um jato de guerra para filmar uma batalha aérea em cima do oceano não é para qualquer um. Tudo em Dunkirk é suntuoso e realista. Nolan sabe filmar desde planos abertos para dar noção da quantidade de pessoas envolvidas até planos completamente fechados para transmitir ao expectador o desespero dos personagens nos pontos mais críticos da guerra. Em uma das primeiras cenas do filme, há um enquadramento de dois mastros que ficam entre a câmera e a praia simulando, de maneira bem sutil, as grades de uma prisão que separa a cidade da praia. Isso é muito simbólico no contexto do resgate de Dunkirk. Os soldados estavam de fato aprisionados na praia e cruzar o Estreito de Dover era a única possibilidade de salvação.



A parceria do compositor Hans Zimmer com o diretor não é de hoje e, mais uma vez, Zimmer compôs uma trilha sonora fenomenal. Os sons nessa película são quase que um personagem no filme. Os barulhos que acontecem durante os ataques se misturam com as músicas. As músicas possuem um “tic-tac” semelhante ao barulho de uma bomba que passam a ideia de que algo está prestes a acontecer. Esse som associado à fotografia fria e azulada de Hoyte van Hoytema são muito importantes para a construção da aflição que o filme gera.

Dunkirk é um retrato frio, real e suntuoso da guerra que optou por apresentar o evento histórico de uma maneira nunca antes feita, por isso certamente vai ser um marco para os filmes do gênero que geralmente escolhem um personagem em específico para usar como fio condutor da história. Já é um dos melhores filmes de 2017 e um dos melhores filmes de guerra dos últimos tempos. 


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