Crônica | Nada

Eu não sinto nada. 

Absolutamente nada. 

Talvez uma agonia pesada no peito mas é tão distante do que eu gostaria de estar sentindo que sequer me sinto confortável para dizer algo. E além do mais, tenho quase certeza de que minhas palavras já acabaram. Em repetições intensas e cansativas, cada sílaba se gastou, se despediu dos meus lábios. Assim como você. 

Eu costumava acreditar em tanta coisa. Tanta história, tanta promessa, tantas datas, vários dias. Eu acreditava e lembrava em flashes constantes, como se eu precisasse a todo custo me manter atenta em tudo aquilo. Eu mal me lembro de metade dessas coisas hoje. Eu mal me lembro de grande parte do que eu jurava ser eterno. Eu mal me lembro de nós dois. 

Por muito tempo eu quis gritar com você, pedir que você dissesse que me amava a cada segundo, pedir que me olhasse diferente mas agora eu quero simplesmente que você perceba. É, que só perceba. Sei que se, mesmo por minutos, você puder fazer isso, vai entender e respirar um pouco mais pesado ao ver o que foi que aconteceu. Teve aquilo, e depois aquela outra coisa, e então vieram várias destas outras coisas para encherem mais ainda o nosso espaço. Encher, entupir cada veia, cada espaço pequeno que estava muito bem guardado. 

Eu queria ser um pouco mais como você. Solto, leve, o mais próximo do espírito de uma criança no corpo de um homem que eu já pude conhecer. Não me entenda mal, estou me referindo ao seu lado criança como o lado que eu realmente gosto. O homem emburrado e irritado não gosta tanto de mim quanto a criança que adora um chocolate. Eu sempre adorei um chocolate também. 

E eu ainda amo você como eu amo chocolate, ainda adoro o seu jeito como eu sempre adorei a criança aí dentro. Ainda tenho espaços guardados que não foram invadidos por todas aquelas coisas, ainda tenho alguns olhares, eu tenho os dias, as datas, as histórias. Mas eu não tenho mais você por completo. E é isso que falta. 


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