Análise | Geni e o Zepelim - Chico Buarque




Se me pedissem para eleger as melhores músicas brasileiras de todos os tempos eu certamente colocaria Geni e o Zepelim entre as primeiras da lista. Já falei várias vezes que todas as pessoas, independente da idade, deveriam, ao menos uma vez na vida, ter a experiência de ouvir essa joia da MPB e fazer uma reflexão acerca de tudo que ela representou em seu lançamento e representa até hoje.

É incontestável que Chico Buarque é um dos maiores compositores brasileiros. Em 1978 ele lança o musical Ópera do Malandro e dentre as belas composições dessa obra está Geni e o Zepelim. A canção nos apresenta a história de Geni, uma prostituta e travesti que sofre constantemente com o preconceito e o ódio dos moradores da cidade. Os versos da música são muito bem rimados e dão a ela uma sonoridade marcante e inconfundível. Para uma análise completa, a música será dividida em quatro partes.

Parte 1: Quem é Geni?

De tudo que é nego torto​ 
Do mangue e do cais do porto​ 
Ela já foi namorada​ 
O seu corpo é dos errantes​ 
Dos cegos, dos retirantes​ 
É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina​ 
Na garagem, na cantina​ 
Atrás do tanque, no mato​ 
É a rainha dos detentos​ 
Das loucas, dos lazarentos​ 
Dos moleques do internato

E também vai amiúde​ 
Com os velhinhos sem saúde​ 
E as viúvas sem porvir​ 
Ela é um poço de bondade​ 
E é por isso que a cidade​ 
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni!​ 
Joga pedra na Geni!​ 
Ela é feita pra apanhar!​ 
Ela é boa de cuspir!​ 
Ela dá pra qualquer um!​ 
Maldita Geni!

Aqui temos uma breve apresentação da personagem Geni. Ela, que namorava dos errantes aos velhinhos sem saúde, ficava com eles em qualquer lugar “Na garagem, na cantina / Atrás do tanque, no mato”. Era considerada “a rainha dos detentos / Das loucas, dos lazarentos / Dos moleques do internato”. O fim dessa primeira parte mostra péssima relação dos moradores da cidade com Geni. No refrão, que se fixa na cabeça do ouvinte, observa-se o peso do preconceito e do retrocesso social. A Ópera do malandro foi lançada em 1978, quase dois milênios após a história bíblica de Maria Madalena que foi salva do apedrejamento por Jesus Cristo. Apesar dos tantos anos que separam essas histórias, a cidade “vive sempre a repetir / Joga pedra na Geni!”. A música deixa claro que Geni era uma garota de programa, entretanto não é possível inferir da letra que ela era uma travesti. Isso porque essa informação é apresentada em outros momentos no musical.

Parte 2: O Zepelim e o Comandante

Um dia surgiu, brilhante​ 
Entre as nuvens, flutuante​ 
Um enorme zepelim​ 
Pairou sobre os edifícios​ 
Abriu dois mil orifícios​ 
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada​ 
Se quedou paralisada​ 
Pronta pra virar geleia​ 
Mas do zepelim gigante​ 
Desceu o seu comandante​ 
Dizendo: "Mudei de ideia!"

Quando vi nesta cidade​ 
Tanto horror e iniquidade​ 
Resolvi tudo explodir​ 
Mas posso evitar o drama​ 
Se aquela formosa dama​ 
Esta noite me servir

Essa dama era Geni!​ 
Mas não pode ser Geni!​ 
Ela é feita pra apanhar​ 
Ela é boa de cuspir​ 
Ela dá pra qualquer um​ 
Maldita Geni!

Aparece um novo personagem na história, o comandante do zepelim. Zepelim é um balão dirigível muito usado em guerras para bombardeios. Quando ele apareceu no céu, a cidade se apavorou. Dele então desce o poderoso comandante chocando todos daquele lugar dizendo que iria poupar a população “Se aquela formosa dama” o servisse. E essa dama era ninguém menos que a prostituta Geni. O refrão mostra a surpresa e incredulidade da população “Mas não pode ser Geni!”. Como poderia alguém tão odiável como Geni ter conquistado o coração do comandante?

Parte 3: A Redenção da População?

Mas de fato, logo ela​ 
Tão coitada e tão singela​ 
Cativara o forasteiro​ 
O guerreiro tão vistoso​ 
Tão temido e poderoso​ 
Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela​ 
(E isso era segredo dela)​ 
Também tinha seus caprichos​ 
E ao deitar com homem tão nobre​ 
Tão cheirando a brilho e a cobre​ 
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia​ 
A cidade em romaria​ 
Foi beijar a sua mão​ 
O prefeito de joelhos​ 
O bispo de olhos vermelhos​ 
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni!​ 
Vai com ele, vai, Geni!​ 
Você pode nos salvar​ 
Você vai nos redimir​ 
Você dá pra qualquer um​ 
Bendita Geni!

Tantas moças na cidade, mas nenhuma delas, só Geni, cativara o forasteiro. Agora ela tinha em suas mãos o poder de salvar ou não aquela cidade que tanto a maltratava. A segunda estrofe dessa terceira parte diz que apesar de ser garota de programa, Geni “Também tinha seus caprichos” e preferia deitar-se com os bichos do que se entregar ao comandante. A cidade mediante a essa situação envia representante de três poderes para clamar salvação a Geni: o prefeito de joelhos, o bispo chorando e o banqueiro com dinheiro. No refrão, a cidade grita quase em um tom de clemência para que a travesti os salve “Vai com ele, vai, Geni! / Você pode nos salvar / Você vai nos redimir”. E para finalizar, a antes maldita, agora se tornara bendita Geni.

Parte 4: A Decisão de Geni

Foram tantos os pedidos​ 
Tão sinceros, tão sentidos​ 
Que ela dominou seu asco​ 
Nessa noite lancinante​ 
Entregou-se a tal amante​ 
Como quem dá-se ao carrasco 

Ele fez tanta sujeira​ 
Lambuzou-se a noite inteira​ 
Até ficar saciado​ 
E nem bem amanhecia​ 
Partiu numa nuvem fria​ 
Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado​ 
Ela se virou de lado​ 
E tentou até sorrir​ 
Mas logo raiou o dia​ 
E a cidade em cantoria​ 
Não deixou ela dormir 

Joga pedra na Geni!​ 
Joga bosta na Geni!​ 
Ela é feita pra apanhar!​ 
Ela é boa de cuspir!​ 
Ela dá pra qualquer um!​ 
Maldita Geni!

Geni cede aos pedidos da população, domina seu asco e dá-se ao comandante. Ele, após usar e abusar dela durante toda a noite, vai embora da cidade. Geni, vendo a benfeitoria que havia feito para salvar aqueles que a odiavam, tenta até sorrir numa expectativa de que tudo a partir dali mudaria e ela passaria a ser bem tratada. Mas assim que raiou o dia, a cidade sequer a deixou dormir gritando “Joga pedra na Geni! / Joga bosta na Geni!”. 

É impossível não se sensibilizar com essa história. Chico Buarque, com muita inteligência, conseguiu em uma única canção abordar vários problemas sociais. O primeiro e mais evidente é o preconceito, nesse caso, em relação à profissão e à orientação sexual. O segundo é a hipocrisia social. Quando souberam que Geni era a única que poderia os salvar, a cidade em peso voltou-se para ela tentando se redimir de todas as atrocidades que cometeram contra a moça. Contudo, bastou o problema ser resolvido que o ódio e a intolerância voltaram a tomar conta da mente daquele povo. Ao fim dessa análise ficam algumas reflexões. Quão distante essa sociedade que Chico mostrou está da nossa atual sociedade? Nós colaboramos com essa sociedade da intolerância? Quantas Genis já jogamos pedras?

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