Crônica | Volta


Você chega e tira as botas, senta na beirada da cama e suspira alto. Um ritual de martírio aos meus olhos que enche meu peito de culpa. Tento me aproximar de você, aliviar seus ombros com um pouco de carinho e pergunto como foi seu dia. Sua resposta dura segundos e isso faz com que eu tire minhas mãos de você e volte ao meu lugar frio na cama. Repenso cada palavra que eu disse e imagino, calculo e delírio sobre nós dois. Você me olha diferente, sorri diferente, me toca diferente. E eu queria tanto, tanto nós dois de volta. Tudo ficou turvo. 

Eu tento ser outra, tento ser mais livre, tento entender sobre aquele filme que você gostou, tento ler sobre as coisas que você entende. Eu troco minhas roupas e a cor do batom. As botas surradas foram trocadas por novas de verniz, caras, bonitas. Mas você nem percebeu. A respiração pesa, o rosto cansa e peito queima. Fui eu quem errei? Tenho medo de cansar de procurar por nós dois nesses dois estranhos que vivem juntos. Quero parar de ouvir o eco das suas palavras ressoando em todo o meu corpo. 

Quero que você saia desse estado líquido, volúvel feito água e que me encha o peito. Que, de alguma forma, você volte a ser um espaço tão grande no meu peito que a cada vez que você volte a sorrir para mim, eu sinta que eu poderia ser capaz de explodir ali mesmo. Eu juro que eu poderia explodir a cada vez que você sorria, que me tocava cheio de carinho. Muito além do físico. Mas o meu peito grita dor porque tá cheio demais de tudo isso que vem sendo acumulado aqui. Tudo isso que não é bom, que não faz bem, que contamina. 

Eu te escolhi, ou talvez você quem tenha me escolhido, porque você sabe me ler, faz dos meus nós um laço único e bonito. Vem cá, amor, me faz um carinho, me enche de beijo, diz que me ama do seu jeito único de dizer, sorri pra mim, me olha, me cheira. Deixa que eu tiro as suas botas, te deito na cama, faço de nós um só. Me entende. 


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