Crônica | Projeções de você



Olhe só para você, todo bem sucedido e bonito nesse terno caro que você provavelmente comprou na sua última viagem para Nova Iorque. Ah, Nova Iorque. Eu me lembro exatamente todas as vezes que você prometeu que visitaríamos o Central Park juntos num momento de loucura qualquer onde falávamos sobre o futuro. Quem diria! Nunca ao menos tivemos a chance de viajarmos juntos. Nem mesmo para o interior, visitar aquela sua tia que sempre te ligava, você se lembra? 
Então vou te lembrar, porque eu me lembro tão bem. Você costumava implorar que eu não te deixasse, enquanto se apertava contra o meu corpo naquele seu quarto bagunçado onde a gente costumava se perder. Olhando para você agora, com o copo de uísque na mão e o sorriso de homem satisfeito no rosto, me recordo exatamente como você costumava ser apenas um garoto assustado, cheio de medo sobre o que iriam achar ou pensar enquanto tudo o que eu queria era me divertir e andar de carro na madrugada, fumar um cigarro no topo da cidade enquanto bebíamos uma cerveja e nos beijávamos um pouco. 
Combina mais com você esse modelinho formal do que a projeção que eu matinha. Me desculpe por isso, eu projetava em você um homem que você nunca foi. O terno é bem melhor que as camisetas de banda que eu te dava de presente e parece esconder com perfeição todos os seus medos e inseguranças. Eu nunca entendi como um homem como você aguentava uma mulher tão livre como eu. Talvez você me explique isso melhor um dia. 
Eu te deixava maluco, lembra? Todas as vezes que você tentava acompanhar a minha mente bagunçada eu via você se perder um pouco. Enquanto eu queria ver o sol nascer você queria voltar para a casa da sua mãe só para evitar uma briga com ela na manhã seguinte. Eu só queria ficar com você. Percorrer os caminhos malucos que eu sonhava para nós dois.
Eu sei que você me amou e, rapaz, eu te amei também! E foi gostoso, foi divertido. Mas o que vejo à minha frente é exatamente o que eu via quando eu te deixei naquele Maio chuvoso. Caminhos diferentes. Espero que a sua raiva tenha passado, que a mágoa tenha sido levada pelas folhas do Outono nova-iorquino e que você nos guarde com carinho. Eu amei demais você. Guarda isso aí, num lugar seguro deste teu peito gostoso de deitar.  


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