Crônica | Você me drenou



Eu esperei que você aparecesse, esperei que abrisse a porta de casa com flores nas mãos e me sorrisse dizendo que sentiu a minha falta e que me ver melhora sempre o seu dia. Esperei você me ligar para dizer que o trânsito estava horrível então que a nossa pizza demoraria um pouco mais. Quanto tempo faz isso?
Quando você finalmente me atendeu no terceiro toque, eu senti meu corpo inteiro relaxar, como se você fosse algum tipo de flanax feito especialmente para o meu corpo, me deixando tranquila no canto do meu quarto, aquele onde várias vezes vi você recolocar o relógio antes de sair para o trabalho depois de uma das nossas noites. A sua gentileza me atingiu por inteiro quando você disse que não chegaria, que não poderia mais vir aqui e cumprir os nossos planos. Todos eles. Naquele momento eu queria que a minha experiência com relacionamento se tornasse menor, praticamente nula. Eu queria não ter entendido que você se referia a nunca mais voltar. O silêncio – que mais parecia um grito – fazia com que meu inconsciente gritasse, implorando que você viesse aqui, eu abriria um vinho e você perceberia que é aqui que quer ficar. Que você quer mesmo é gastar todo o tempo que tiver comigo. Assistindo aquela série, falando dos outros e roubando a coberta da cama durante a noite.
Mas eu não disse nada e nem você. Sentada com a taça de vinho e o pedaço de pizza que era para nós dois, esperei você subir as escadas correndo só para me dizer que foi só uma confusão e que podíamos até assistir aquele filme de terror que você detesta na última sessão do cinema. Não acreditei quando você disse que ainda me amava. Que amor é esse, afinal, já que estou sozinha e perdida entre as quatro paredes deste cômodo incômodo e nostálgico? Você estragou o meu lugar favorito. 
Depois da última gota daquele vinho barato, a minha mente divagava pelos lugares mais absurdos, você me secou, me drenou, e levou tudo. Você é uma daquelas pessoas que arrebata a gente, se não fosse, eu não estaria aqui me arrastando por este apartamento cinza, feito mãe que espera filho na madrugada, te esperando chegar, o interfone tocar, seu sorriso adolescente, seus olhos grandes de análise crítica, sua boca boa de beijar.
Mas você não chegou, a última gota do vinho já foi e a pizza esfriou. A gente acabou.


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