12 de janeiro de 2017

Crônica | Prazeres Roubados



A chave prateada rodou mais cedo na porta de casa depois de eu ter sido dispensado pelo insuportável do meu chefe em mais um dia entediante de trabalho. Na volta para casa, apenas conseguia imaginar as suas doces e usuais palavras de conforto ao pé do meu ouvido. Você sabia me hipnotizar como mais ninguém com aquela voz melódica. Mas ao adentrar a sala de estar desejei profundamente arrancar os ouvidos pelo resto do dia.

Eu tinha certeza de que você estava em casa. Seu aroma inconfundível ainda pairava pelo ar e se misturava com o cheiro da madeira que revestia o chão daquele que, por tantos anos, havia sido o nosso pequeno ninho de amor. Bebi o resto da água que estava em cima da mesa e comecei o trajeto pelas escadas estreitas que davam ao andar superior daquele lugar. Eu sabia que subir devagar não adiantaria e, por um momento, quis fazer o máximo de barulho possível a fim de abafar o som que vinha do lado de dentro do nosso quarto. A cada degrau que percorria, um pedaço de mim ia ficando pela casa, odiando-me e odiando você um pouco mais.

Não, aquilo não poderia estar acontecendo! Seria coisa da minha cabeça? Eu negava a todo instante, mas sabia perfeitamente o que as paredes da nossa casa estavam escutando. Abri a porta e lá estavam vocês dois nus, despidos, suados, envoltos pelo nosso lençol e exalando um aroma diferente. Ele me fitou com vergonha e eu não consegui exibir nenhuma expressão. Por que comigo? Por que naquele momento, naquele dia, naquela ocasião?

Explicações não faziam sentido, cheiros não significavam mais nada, luzes eram flashes e eu apenas soube arrancar suas roupas do nosso guarda-roupas e atirar pela janela, não sobrando nenhuma. Palavras não existiram em minha boca e eu não consegui olhar em seus olhos nem por um segundo sequer.

Agora a nossa casa está vazia, onde a sua risada alta foi substituída pelos ruídos que escapam da televisão e eu estou atirando todos os seus perfumes pela pia do banheiro de visitas. As nossas fotos preenchem o chão do nosso quarto e eu estou com o telefone no colo. Ainda aguardo sua ligação.



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