Crônica | Pouco restou de mim



O vazio come minhas entranhas com um silêncio que grita. Grita tão alto que sinto fobia do som que chega até mim. Estou tentando – desesperadamente – ter mais amor ao que vivemos e não guardar todo esse rancor aqui dentro mas eu me sinto sufocada. A gratidão está tão bem guardada que eu mal consigo pensar direito, eu não consigo ter tempo entre todos os meus pensamentos violentos para deixar que todo o sentimento bom me preencha novamente.
Não existe livro de auto-ajuda que me dê uma mão agora. Não tem ar puro o suficiente que não me lembre daquele perfume amadeirado que você costumava usar. As suas frases – todas prontas, vazias – ainda ecoam em minha mente e gritam quase tão alto quanto o silêncio. Eles oscilam, brincando de me torturar enquanto o uísque queima a minha garganta, enquanto a dor derrete o meu peito, enquanto eu choro de raiva por tudo o que você deixou de fazer por nós dois.
Você voltou para ela e eu ainda tento entender como é que isso aconteceu. Por que é que fez isso? Como é que pôde? Aqueles meses, todos cheios de sintomas de amor, foram apenas uma farsa. Algo que você usou para se sentir melhor enquanto ela não queria você. Ela não te queria mas eu só sabia gritar seu nome, olhar em seus olhos, implorar sua afeição. Eu te fiz sentir melhor. Eu lembro das suas palavras sujas enquanto tinha as mãos na minha coxa e a boca no meu pescoço.
Ah, então foi apenas isso para você, certo? Você estava cheio de atração, transbordando de tesão mas não tinha amor, não é? Não tinha a porcaria do amor. Eu fui um tipo de móbile enquanto você se preocupava apenas em se divertir com o meu movimento sutil. Você roubou o amor que eu guardei para mim mesma e então entregou-o para outra pessoa. Me deixou aqui, sem o seu amor, sem o meu amor, nem nenhum amor.
Não te dói? Saber que você atingiu toda a minha dor, saber que você apagou toda a minha chama. De alguma forma eu sinto uma gratidão sádica pela forma como você foi embora, ainda bem que você me deixou para trás. Mas por favor, se ainda tem um pouco de consideração por mim, liberta o meu peito da maldição desse seu sentimento. As suas palavras já se foram, você já se foi mas eu fiquei para trás. Ainda estou aqui, com um copo na mão, o gelo queimando meus dedos, sua camisa surrada no meu corpo, a solidão no peito.

Texto postado originalmente no Grupo Quinquilharia. Visite o site clicando aqui.


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