29 de janeiro de 2017

Análise | Interestrelar (2014)



Christopher Nolan é um dos grandes nomes do cinema atual. O diretor se consolidou no cenário cinematográfico dirigindo filmes notórios como Amnésia (2000), A Origem (2010) e a trilogia Batman – O Cavaleiro das Trevas. Nolan é famoso por estar à frente de filmes extremamente imaginativos, inteligentes, elaborados e técnicos. Costuma-se dizer que se três pessoas assistirem a um filme dele, uma não vai entender, uma vai odiar e a outra vai amar. Em 2014 foi anunciado o lançamento de Interestelar e isso gerou muita expectativa no mundo cinematográfico.

A película se trata de uma ficção científica cuja premissa é simples: o planeta Terra está morrendo e é necessário encontrar um novo lar para a população. Apesar da premissa simples, o desenvolvimento do enredo é complexo e bem elaborado. Tal desenvolvimento se dá em três atos muito bem definidos. No primeiro ato, que se passa todo na Terra, fica estabelecida a sensação de que os dias na aqui estão contados. Poeira e falta de alimentos dificultam a sobrevivência. Nesse cenário está Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto da NASA, seu sogro e seus dois filhos. Eles residem numa fazenda próxima à cidade. Cooper descobre um projeto da NASA que objetiva levar uma expedição interestelar para encontrar um novo lar para os habitantes da Terra e é convidado para chefiar tal expedição. O segundo e o terceiro ato apresentam os desafios que a esquipe encontram no espaço para cumprir a missão.

Nos aspectos técnicos o filme é arrebatador. Nolan abusa de efeitos práticos e usa a computação gráfica sempre a favor da história. Os planetas, as naves, os robôs, tudo é muito palpável e verdadeiro. As sequências são muito bem feitas e a direção de arte clean deixa o filme visualmente leve.

O roteiro merece atenção especial. Os irmãos Christopher Nolan, Jonathan Nolan e o físico teórico Kip Thorne trabalharam juntos na construção de uma história densa e pautada na ciência. Buraco de minhoca, teoria da relatividade, distorção do tempo e outros conceitos de física teórica são ampla e sabiamente trabalhados em Interestelar. Apesar de toda essa carga cientificista que já é de praxe nos filmes de Nolan, nessa película o teor dramático está presente como fio condutor da história. A relação de amor entre Cooper e sua filha são fundamentais em todos os pontos do enredo. É impossível não se emocionar com algumas cenas de Interestelar em especial com a cena em que Cooper, do espaço, conversa com sua filha por vídeo. Uma das cenas mais tocantes que já vi no cinema. O desfecho do filme, criticado por uns e elogiado por outros, a meu ver, foi espetacular. Nolan passa o filme inteiro se sustentando em conceitos físicos bem determinados. No fim ele chegou num campo que a ciência ainda desconhece e com isso tomou a liberdade de criar uma solução que, apesar de não ser a mais plausível cientificamente, funciona muito bem para fechar a história.

As atuações são sensacionais. Matthew McConaughey expressa todo o drama de um pai que teve que tomar difíceis decisões buscando o bem dos filhos. Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn interpretam Murphy, a filha de Cooper, e as três atrizes, que interpretam a personagem em fases diferentes da vida, se sobressaem muito bem. Michael Caine e Anne Hathaway interpretam pai e filha que trabalham para a NASA e também constroem uma relação muito boa. Há ainda um ator surpresa no filme que aparece no meio do segundo ato e também da um show.

A trilha sonora feita pelo gênio Hans Zimmer casa perfeitamente com cada cena. Ora é mais misteriosa, ora é mais dramática. Zimmer utiliza em essência o piano e o órgão. Apesar de músicas marcantes, muitas vezes em interestelar o que mais chama atenção é o silêncio. Há cenas no espaço sem som algum que são puramente contemplativas.

Por fim é importante comentar a polêmica envolvendo comparações entre o filme de Nolan e 2001 uma Odisseia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick. Muitos críticos de cinema criticaram Interestelar ao compará-lo com o clássico de Kubrick. Essa comparação não pode ser feita, pois são dois filmes que, apesar serem do mesmo gênero (ficção científica), diferem-se quanto ao objetivo cinematográfico. 2001 é mais conotativo, como o próprio Kubrick já dizia, é um filme para se contemplar e refletir. É um filme que, desapegando de um roteiro fechado, deixa espaço para que o espectador tire suas próprias conclusões a cada cena. Interestelar tem outra pegada, aqui Nolan busca fazer um filme cientifico sustentado pelo seu roteiro. Apesar de também levantar questionamentos, ter muitas cenas, e claras referências visuais ao filme de Kubrick, Interestelar é mais denotativo. Comparar os dois filmes é cometer uma injustiça. Ambos são grandes obras do cinema, tem importâncias diferentes e merecem ser analisados cada um em seu contexto.



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