27 de dezembro de 2016

Filmes | Os 10 melhores filmes nacionais

Não é incomum ouvir a frase “filme brasileiro não presta”. Essa frase além de uma total mentira é uma ofensa ao cinema brasileiro que constantemente nos presenteia com verdadeiras obras primas. Hoje vou listar dez filmes que provam a beleza do cinema nacional. Na lista, mostrarei filmes pós década de noventa, entretanto não posso deixar de citar e recomendar algumas películas que consolidaram e fortaleceram o cinema brasileiro antes dessa década: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), O Pagador de Promessas (1962) e Terra em Transe (1967).

10º Amarelo Manga (2002)
Amarelo Manga não é para qualquer um. Dirigido pelo inovador e ousado Cláudio Assis o filme é um compilado de histórias que apresentam a população brasileira nua e crua, sem máscaras, sem pudor, sem eufemismos. O filme mostra os desejos, as obstinações e as taras desse povo. Leona Cavalli é Lígia, a dona de um bar; Jonas Bloch é Isaac, o necrófilo; Chico Diaz é Wellington, o açougueiro; Dira Paes é Kika, a evangélica; Matheus Nachtergaele é Dunga, o homossexual apaixonado pelo açougueiro. Buscando fugir de qualquer glamour ou clichê, o diretor consegue fez uma obra quase sociológica que expressa da maneira mais seca possível pessoas que vivem, amam, sofrem, tramam e traem apesar te todas as dificuldades da vida.

9º Bicho de Sete Cabeças (2001)
Assistir Bicho de Sete Cabeças é uma experiência agonizante e sufocante, mas necessária. Rodrigo Santoro vive o jovem Wilson Neto que foi pego pelo pai com um cigarro de maconha e, sem ao menos ter a chance de se explicar, foi preso em um hospital psiquiátrico. A convivência de Neto com os pacientes do hospital junto ao “tratamento” que ele recebeu o tornam psicologicamente alterado. Ele é transformado num “bicho de sete cabeças” como o próprio nome da película diz. A direção muito bem conduzida explora bastante o talento de Santoro. A montagem e trilha sonora são pontuais deixam a experiência ainda mais intensa. Baseado em fatos reais, essa obra apresenta a realidade dos manicômios no Brasil e serve como ferramenta da luta antimanicomial. 

 Que horas ela volta? (2015) 
Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha e mora na mansão de uma família de classe média alta em São Paulo. Val é surpreendida por um telefonema de sua filha Jéssica (Camila Mardila), quem ela não via há 10 anos, avisando-a que iria para São Paulo prestar vestibular. Val pede aos patrões para sua filha ficar na casa temporariamente até encontrarem um lugar para se mudar. A premissa do filme pode parecer simples, mas não é. Assim que Jéssica chega na casa da família burguesa, toda a hierarquização social e a divisão de classes são colocadas em cheque. A filha de Val questiona todas as “regras” de convivência entre patrões em empregado estabelecida. Isso gera no expectador uma reflexão sobre como nós passamos a vida inteira achando aquelas situações de exploração e submissão normais, quando na verdade elas não são. Ana Muylaert faz uma direção extremamente bem feita e apegada aos detalhes. Regina Casé da um show na atuação mostrando seu grande potencial de atriz em cenas ora de humor ora de drama. 

Hoje eu quero voltar sozinho (2014) 
Daniel Ribeiro em 2011 lançou o curta-metragem Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho. O curta, além de ter sido um sucesso no YouTube com mais de 3 milhões de visualizações, foi premiado em diversos festivais pelo mundo. Em 2014 ele lançou o longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e o sucesso foi o mesmo. Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente com deficiência visual, é o melhor amigo de Giovana (Tess Amorim) e se apaixona pelo seu novo colega de classe Gabriel (Fábio Audi). O filme fala de amor, amizade e independência. O grande acerto de Daniel Ribeiro foi tratar de assuntos ainda considerados tabus (homossexualidade e deficiência física) com extrema naturalidade. Aqui o drama está focado nas relações entre os personagens e na descoberta do amor. O diretor nunca força aceitação da condição sexual de Léo ou dá ênfase nas dificuldades que ele enfrenta por ser cego. Dois pontos fortes do filme são a atuação extremamente verdadeira de Guilherme Lobo e a excelente trilha sonora que varia de Marcelo Camelo a David Bowie.  

6º O som ao redor (2012) 
Garanto que O Som ao Redor é diferente de tudo que você já assistiu. Dirigido por Kléber Mendonça Filho, essa película pode ser vista sob duas ópticas: uma interna e uma externa. Externamente temos cenas cotidianas e aparentemente triviais de diversos moradores de uma rua em Recife. Internamente temos uma crítica ao coronelismo brasileiro. Seriam necessárias páginas e mais páginas para analisar o significado de cada pequeno segmento de O Som ao Redor. O filme reúne um compilado de críticas à exploração, divisão de classes e segurança pública. Tudo expressado através do som. O som se torna um personagem a mais na trama estando presente em todas as sequências sempre querendo evidenciar algo. Algumas cenas do filme dão a ele um tom surrealista, contudo esse “surrealismo” é apenas uma elucidação da real crítica da história. Assistir a esse filme é uma experiência cinematográfica única. 

 Tropa de Elite (2007) 
Um filme que retrata o complicado panorama das relações entre criminosos, polícia tradicional, BOPE e estudantes nas favelas cariocas. No centro temos Wagner Moura interpretando o icônico Capitão Nascimento, uma figura maniqueísta. Por um lado o Capitão Nascimento chefe das operações especiais que mata e tortura os criminosos sem piedade e por outro lado o Capitão Nascimento sensível que esta prestes a ser pai. Com uma direção frenética e bem feita, José Padilha opta por um filme sem muitas cores, com predomínio da escuridão. Tropa de Elite apresenta o Brasil do jeito que ele é: contraditório. Temos a polícia que luta contra o crime, mas é extremamente corrupta. Temos os estudantes que têm consciência social, mas abusam das drogas e colaboram com o crime organizado. Tropa de Elite é enérgico, veemente e representa muito bem a batalha contra o tráfico. 

 Aquarius (2016) 
Sônia Braga interpreta Clara, uma sexagenária que é a única moradora do Edifício Aquarius. A construtora Bomfim pressiona Clara a vender seu apartamento para que eles possam demolir o prédio e construir um novo edifício, todavia Clara resiste fortemente à pressão deles. Ela está decidida a não vender seu apartamento, pois existe uma forte relação de afeto e memórias entre ela e aquele lugar. Dirigido por Kleber Mendonça Filho, Aquarius se sobressai em todos os quesitos possíveis. A direção é delicada e apegada a detalhes que, muitas vezes, podem passar despercebidos. Sônia Braga nos presenteia com a melhor atuação brasileira dos últimos anos. O filme gira em torno dela. A trilha sonora também é um show: Queen, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Alcione, entre outros. A obra, que foi extremamente comentada e elogiada no festival de Cannes, tem uma forte carga política e promove discussões sobre especulação imobiliária, relação habitante/lugar habitado e convivência entre o velho e o novo. Com quase duas horas e meia de filme, Aquarius nunca fica cansativo, pelo contrário, a tensão só aumenta até chegar a inesquecível cena final. 

3º O Auto da Compadecida (1999)
Um clássico adorado por todas as gerações. O Auto da Compadecida versão de 1999 dirigida por Guel Arraes é, sem a menor dúvida, uma das maiores joias do cinema nacional. Na história temos Chicó e João Grilo, amigos que sobrevivem dia a dia no sertão graças à inteligência e esperteza de João Grilo. O filme é uma adaptação da obra de Ariano Suassuna e tem uma direção certeira. Genuinamente engraçado, ele trás todos os principais personagens das obras sertanejas: o coronel, o clero, os cangaceiros, a polícia e o povo. Matheus Nachtergaele e Selton Melo dão um show interpretando a dupla de amigos. Algumas cenas do filme, como a cena do julgamento final ou a cena do enterro da cachorra Bolinha, ficam guardadas na memória de todos que o assistem. 

Central do Brasil 
A tocante história de Josué (Vinícius de Oliveira), um garoto que vê sua mãe morrer atropelada perto do prédio da Central do Brasil, e Dora (Fernanda Montenegro), uma mulher que trabalha na Central escrevendo cartas para analfabetos. Antes do trágico acidente, Dora havia escrito uma carta de Josué e sua mãe endereçada o pai do garoto, quem ele nunca conhecera. Após esse acidente, Dora vê-se na obrigação de cuidar de Josué. O filme retrata o desenvolvimento da relação de amizade e cumplicidade entre eles durante uma viagem para o nordeste em que ela o leva para conhecer o pai. Fernanda Montenegro fez uma atuação tão brilhante que foi indicada ao prêmio de melhor atriz no Oscar de 1999. Central do Brasil é o filme mais tocante e sensível dessa lista. 

1º Cidade de Deus (2002) 
Frenético, alucinante, uma explosão de imagens e sons, isso é Cidade de Deus! O melhor filme da história do Brasil, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, mostra a ascensão do crime organizado na Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro. Tudo é contado sob a óptica de Buscapé, um garoto que acompanhou o crescimento da favela desde que a Cidade de Deus era um conjunto habitacional. Com uma direção extremamente pop, Meirelles da um show e coloca essa produção brasileira no mesmo patamar de qualquer uma grande produção hollywoodiana. A edição e montagem do filme são enérgicas e utilizam de vários recursos técnicos. O roteiro prende o expectador ao máximo e o deixa fixado a todo o momento na história. Cidade de Deus fez história no cinema nacional ao inovar unindo um estilo totalmente inovador e quase “tarantinesco” de fazer filmes às grandes mazelas do Brasil: o tráfico e a violência. 

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