29 de novembro de 2016

Crônica | Esperança dos dias perdidos

Em uma noite, eu estava sentada em um auditório, apreensiva. Meu curso estava debatendo, avidamente, se paralisaríamos as aulas. Iríamos aderir às greves deflagradas em tantas outras universidades? De que lado estamos e o que queremos? 

Escutei, naquele momento, pessoas que eu conhecia em um debate ferrenho sobre nossos direitos. Elas vociferavam à favor de uma democracia inexistente. Gritavam, não por partidos políticos ou pessoas no poder, mas por um país mais justo. 

Não vejo a necessidade de um posicionamento político agora, porque isso já não mais importa. Não importa se acreditamos em quem está lá em cima ou não. Não importa se essa pessoa tem algum poder sobre nós. 

Tudo o que eu conseguia sentir, naquele momento e naquele lugar, era orgulho. Um orgulho ingênuo. 

Senti orgulho porque vi, diante dos meus olhos, uma juventude forte. Lembrei de todas as vezes em que disseram, da boca para fora, que os jovens estavam perdidos. Lembrei de todos que disseram que nossa geração só se preocupa com futilidades. 

Vi pessoas abrirem mão de parte de seus futuros por uma causa. Lutar por um causa, seja ela qual for, é o suficiente. Foi suficiente para me lembrar da capacidade das pessoas. Do poder que temos. Do pouco poder que temos. 

Hoje, ajudei pessoas a construírem instalações artísticas. Coloquei minha mão nessa produção, nessa forma de protesto. Olhei para elas, horrorizada com a beleza daquele momento. Todos, unidos por uma causa. Todos, unidos pela simples esperança de tempos melhores. 

Eu sentia o vento frio batendo no meu rosto, sentia o sol queimando meus olhos, sentia o eco das risadas, das conversas. 

Sou a favor da vida, da igualdade, da oportunidade e da felicidade. Sou a favor do amor. E o que eu vi, naquele momento, foi o mais puro amor. Foi a esperança e a beleza da possibilidade. Vi insegurança, dúvida, apreensão. Mas, acima de tudo, percebi um espírito de união que eu nunca antes tinha presenciado em meio a pessoas tão diferentes, tão separadas. 

Fazíamos parte do mesmo curso, mas não conversávamos. Nos unimos, de uma maneira tão pura, tão real. Não pude deixar de sorrir, mesmo estando com fome e cansada. Não pude não rir o mais alto que meus pulmões foram capazes, porque tudo era tão bonito. 

Toda essa união, toda essa coragem contagiou minha vida. Contagiou meu dia. 

Saí de lá pensando nas palavras necessárias para descrever esses pequenos momentos. Pensei nos cartazes, nas assembleias, no fato de que os professores estavam nos apoiando mais que nós mesmos. Pensei em tudo o que poderia acontecer, em todas as terríveis possibilidades de um ato como esse. 

Vendo essa mobilização, não consigo me impedir de abraçar essa causa. Sei, depois dessas semanas de debates intensos e conversas importantes que, não importa o que acontecer, teremos um futuro bom. E ele será bom porque estamos aqui. Porque somos corajosos o suficiente para lutar pelo que realmente importa. Será bom porque somos ingênuos e será bom porque não somos. Ele representará o ápice de nossa história e nossa ínfima capacidade de destruição. Ele nos representará e isso, somente isso, basta.

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