27 de novembro de 2016

Análise | Réquiem para um Sonho (2000)


Certa vez eu estava assistindo a um top 10 dos melhores filmes da história do cinema em um canal no YouTube quando, antes de iniciar a lista dos 10 grandes filmes, o crítico de cinema fez uma observação. Em sua observação ele dizia que iria considerar na lista apenas filmes “bons de assistir”, filmes que “deixassem o expectador com uma sensação boa no final”. Ele citou como exemplo o filme Requiem for a Dream que, a seu ver, era um filme excepcional, contudo muito deprimente. Algo nessa observação tão enfática me chamou atenção e, no dia seguinte, assisti ao filme. Findando-se a película eu não sabia esboçar o que sentia, estava atônito! Requiem for a Dream naquele momento tinha se tomado o topo da minha lista de filmes favoritos e vou contar o porquê.

Esse é o segundo filme da carreira do diretor norte-americano Darren Aronofsky (Cisne Negro, Noé) e foi lançado em 2000. Fugindo totalmente do padrão de filmes feitos até então, Requiem tem como tema central os vícios e suas consequências. A história gira em torno de quatro personagens que possuem, cada um, um sonho. Além desses sonhos, cada personagem tem um vício e esses por sua vez, apesar de inicialmente parecerem auxiliar na concretização desses sonhos, na verdade são grandes antagonistas deles.

O personagem central, Harry Goldfarb (Jared Leto), objetiva fundar uma grife de roupas junto com sua namorada Marion Silver (Jennifer Connelly). Tyrone (Marlon Wayans) é o melhor amigo de Harry e sonha “ser alguém na vida” para dar orgulho a sua mãe. Esses três personagens tem em comum o vício nas drogas. Ellen Burstyn interpreta Sara Goldfarb, a mãe do Harry. Sara é uma mulher viúva, viciada em televisão e comida. Certo dia ela recebe uma carta convidando-a para participar de um programa de auditório. Sara, a partir dessa carta cria um sonho: ela precisa emagrecer para entrar em um vestido vermelho que escolheu para aparecer na TV. Frustrada com dietas ineficazes, Sara começa a fazer uso indiscriminado de anfetaminas para perder peso e se vicia.

O primeiro ponto que me marcou em Requiem foi o roteiro. Extremamente bem escrito e pontual, ele é uma adaptação do livro homônimo de Hubert Selby Jr. Simples, direto e fechado, o roteiro dá espaço para que a edição brinque com a montagem do filme sem que a história se perca. Falando em montagem e edição, esse é um dos grandes achados da película. Um filme comum geralmente tem em torno de 600 cortes, já Requiem tem mais de 2000. A montagem frenética é composta de cenas curtas e sequenciais criando uma cadência e um ritmo batizados pelo diretor como Hip Hop Montage.

Falando mais sobre o roteiro, a história foi divida em três atos que recebem o nome de estações do ano. Na sequência: Summer, Fall e Winter. Isso, assim como tudo no filme, não está ali gratuitamente. As estações do ano escolhidas fazem menção ao estado de espírito dos quatro personagens e suas perspectivas em relação a seus sonhos. No verão tudo está aparentemente tranquilo, as perspectivas são boas para os quatro. Para o outono, o diretor escolheu, sabiamente, a palavra “fall” ao invés de “autumn”. Isso porque “fall” também significa queda, cair, e isso é exatamente o que começa a acontecer com as expectativas dos personagens. É nesse ponto do filme as consequências dos vícios começam a aparecer. Por fim, chega impactante o ato final, o inverno.

Poucas vezes no cinema eu vi uma sequência de cenas tão chocantes como o ato final de Requiem for a Dream. O choque ao assistir às cenas se dá pelo realismo e veracidade do que se está vendo. O diretor apresenta cruamente pessoas que tiveram toda a sua humanidade sugada pelos vícios e sem apelar para imagens apelativas. Tudo ali é real, tudo ali é assustadoramente plausível. O ritmo das cenas é crescente, agonizante e sempre acompanhado pela magistral trilha sonora de Clint Mansell. Os últimos 10 minutos do filme - gosto de chamar de “o clímax da destruição” - mostram Sara, Harry, Tyrone e Marion massacrados pelos vícios, com seus sonhos completamente frustrados e sem perspectiva de que algo melhor está por vir. Apenas as lembranças do que já foi um verão feliz pode confortar os personagens nesse inverno.

O próprio nome Requiem for a Dream permite uma análise mais a fundo. Ele pode parecer estranho quando não se sabe o significado de requiem, todavia carrega consigo toda a essência da história. Requiem é ritual religioso feito para os mortos. Requiem para um sonho, portanto, deixa claro o destino dos sonhos dos envolvidos na trama.

Depois de tudo pode surgir um questionamento: por que esse filme se tornou o meu preferido? Eu respondo facilmente! O que eu mais valorizo no cinema é a capacidade que os filmes têm de te desligar do mundo externo e te conectar com a história. O cinema precisa ser uma experiência sensorial ampla, deve promover reflexão, discussão e mudança de percepção. Requiem for a Dream cumpre com louvor todos esses papéis. 

Para finalizar, a reflexão que deixo após esse filme é: para onde nossos vícios estão nos levando?

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