Crônica | O que eu mais gosto em você?

 Eu pensei várias vezes no que escreveria antes de me sentar aqui e abrir esta página em branco. Pensei no seu rosto e rapidamente me distraí, a forma como seu sorriso faz uma covinha no canto de sua boca me fazendo sorrir instantaneamente, tirando-me das funções racionais as quais eu estava tentando empenhar. Seu sorriso me lembrou daquela sua risada alta, gostosa, tão familiar aos meus ouvidos quanto o conforto que trás ao meu corpo. E eu me lembrei da primeira vez que a ouvi, a blusa xadrez em seu corpo me fazendo querer urgentemente te tocar, e eu encostava minhas mãos em você sempre que tinha a mínima chance. Me lembro do seu cheiro, provavelmente um perfume importado qualquer que você não usa mais. O cheiro se foi, trazendo lugar aos novos cheiros que juntos descobrimos. O cheiro da sua pele, o cheiro que você deixa na minha roupa de cama e aquele seu perfume que impregna todas as minhas roupas. Obrigada por isto, é bom tirar a jaqueta do armário e encontrar seu cheiro lá, grudado, assim como você está em mim agora.

Eu me lembro de uma tarde qualquer em uma sexta feira. Você estava comigo e seus dedos se entrelaçaram nos meus, me fazendo olhar ao redor. Nossos corpos se perderam naquele quarto por tantas vezes que não me lembro se ainda consigo contar. Você me deu aquele olhar, aquele do qual eu falo para todos, o qual me entrega a sensação de que sou algo a ser admirado, alguma obra de arte do Museu de Louvre. Será que você sabe que me olha desta forma e me desmonta inteira em apenas uma fração de segundos? Eu acho que você sabe. Daquela tarde ainda, me lembro de como você brincou com meus dedos, depois com meu cabelo, sua mão grande e firme sempre em meu corpo de alguma forma. Obrigada por isto também, continue, por favor.

Confiro e relógio e fazem vinte minutos que estou sentada aqui. A caneta na boca enquanto penso como começar a escrever pensando em você. Não posso fazer isso, não posso escrever sobre o que gosto em você. Ninguém leria, nem eu sequer leria novamente para correção. Eu nem ao menos sei citar o que gosto em você. Acho que é o conjunto do seu corpo inteiro, grande e firme, que guarda um coração mole e tão bonito. E aí deixo de lado a caneta, a folha em branco e o texto que deveria escrever apenas para encontrar seu sorriso e suas mãos firmes. O texto pode esperar até que eu decida o que gosto mais em você, posso voltar a escrever depois de procurar em cada pedaço de seu corpo algo que me faça voltar até aqui com a primeira frase pronta, me fazendo voltar até você para depois escrever a segunda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário